«Para mim, o núcleo duro do romance [O Evangelho segundo Jesus Cristo] é quando Jesus, aos catorze anos, vai ao templo de Jerusalém para falar da culpa e da responsabilidade. Nâo encontra nenhum doutor, mas sim um escriba. Jesus, no livro, herda a culpa de seu pai, que não soube salvar as crianças [no episódio da matança dos inocentes]. Quando pergunta ao escriba como é que é isso da culpa, o escriba diz-lhe: "A culpa é um lobo que devora o pai como devora o filho." Quer dizer, a crença implica que os filhos herdaram a culpa dos seus pais. A partir de um dado momento, já não se sabia qual a culpa concreta. O sentimento de culpa, que não sabemos porquê nem como nasceu, como se incrustou em nós, é muitíssimo pior do que a culpa concreta. Então, Jesus pergunta-lhe: "Tu também foste devorado?" E o escriba responde: "Não só devorado, mas também vomitado." A relação com Deus dá-se em termos de culpa, como no fundo acontece em todo o cristianismo e judaísmo.»
José Saramago
Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas...